Amsterdã, principal cidade da Holanda, é famosa mundialmente por vários motivos. São mais de 100 quilômetros de canais, num total de 165, sobre os quais foram construídas mais de 1.500 pontes. Isso sem falar nas 90 ilhas e o charme dos moinhos de vento, e as plantações de tulipas, que compõem a paisagem nos arredores da cidade. Ah, não podiam faltar as bicicletas, as milhares que circulam pelas ruas diariamente, cena cotidiana pitoresca, que confere às bicicletas o papel de principal transporte usado pelo moradores e turistas.
Quem lê o trecho acima pensa logo que Amsterdã é uma cidade quase perfeita, sustentável, harmônica, e com excelente qualidade de vida. Só que não é bem assim. Alguns números alarmantes colocam a cidade em lugar bem menos favorável.
Para começar, as bicicletas são uma ilusão de solução para o meio ambiente entre os holandeses. Os motivos são bem mais inusitados. Estatísticas mostram que a cidade tem mais bicicletas do que gente: 780.000 moradores contra 881.000 bicicletas. Isso seria muito positivo se as bicicletas ficassem nas ruas e calçadas. Um número surpreendente acaba dentro dos canais. Estima-se que 15.000 acabam no fundo dos canais. O motivo? As autoridades locais responsabilizam vândalos e ladrões que as jogam sem motivos claros. Há também os bêbados que acabam caindo com bicicleta e tudo. O resultado é uma tipo de poluição que não se espera de um país para lá de desenvolvido.

O impacto é muito delicado. Dragas precisam remover as bicicletas contorcidas e enferrujadas das águas regularmente. E mergulhadores ficam de plantão 24 horas por dia para salvar pessoas que caem nos canais. Por não serem profundos, qualquer queda na água representa risco de vida.
O entulho acaba sendo reciclado, mas o dano ecológico é constante. Alem da poluição das bicicletas, outro problema é a poluição com plásticos. Os canais estão enfestados com lixo de plástico. Ambientalistas usaram a criatividade para vencer esse desafio. Grupos oferecem passeios de ?pescaria de plásticos? pelos canais da cidade. Tudo que é recolhido é usado na construção de barcos sustentáveis. Até o momento, 10 embarcações já foram construídas. Esse lixo soma-se aos quase 8 bilhões de quilos de plástico que estão poluindo os mares do planeta.

A Holanda enfrenta desafios ambientais e de saúde que vão além das bicicletas e plásticos. Apesar de 1/3 da população usar bicicletas, o país ainda assim tem uma volumosa frota de carros e caminhões que circulam por todo o pais. Sendo a Holanda um dos menores países da Europa, a escassez de espaço faz com que haja muita aglomeração de pessoas. A concentração de gente, associada ao volume de poluição que vem dos veículos movidos a gasolina e diesel, é responsável por muitas doenças respiratórias.
Para piorar, o aeroporto mais movimentado da Europa, o Schipol, fica em Amsterdã. São nada menos que 1500 pousos e decolagens por dia. A contaminação do ar, e a poluição sonora, são consideráveis. Anualmente, aproximadamente 15.000 pessoas morrem na Holanda, vítimas de doenças respiratórias, ou por doenças associadas aos ruídos da cidade.
O governo não teve alternativa. Aprovou um plano emergencial para solucionar o problema da qualidade do ar na cidade. Nenhum veículo movido a gasolina ou diesel poderá circular por Amsterdã depois de 2030. Resta saber o que será feito com o aeroporto. Fala-se em expansão das pistas para aumentar o tráfego. Será que decola?